Tecnologia, afetividade e empatia no ensino superior ao vivo

Marcio Gonçalves

Marcio Gonçalves

Educador

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Esse é um relato do que vi, ouvi e fiz durante as aulas online que ministrei nas faculdades particulares em que sou professor. Em julho de 2020, ao término do 1º semestre, eu já poderia ter comemorado, mas deixei o relato para esse momento. Tudo começou inesperadamente em março quando foi anunciado o fechamento das instituições de ensino devido à pandemia do COVID-19. Lembro que tive 15 dias de incertezas, mas, ao mesmo tempo, de novos rumos. As duas faculdades deram recesso aos professores e estudantes para conseguirem montar seus planos de ação.

Quando foi anunciado o novo modelo de ensino, eu já estava, de certa forma, preparado. O básico eu tinha: computador e acesso à internet. De quebra eu também já possuía em casa outros recursos que já fazia uso: ring light (iluminação) e fone de ouvido (aquele do celular mesmo). Com o pacote completo em mãos, lá fui eu receber aqueles alunos que haviam iniciado as aulas presenciais comigo umas três semanas antes do fechamento das unidades.

Eu confesso que iniciei as aulas com grande euforia. Ao mesmo tempo que parecia fácil, o desafio foi constante. Tecnologia, afetividade e empatia formaram meu escudo para conseguir lidar com a distância física. Minha chamada tinha um tom de resgate. A cada nome que eu não via ou ouvia, eu queria saber o motivo da falta. Nem todos conseguiram voltar às aulas no modelo online. Aquela situação me acendeu um alerta: a desigualdade começava a vir à tona. 

Ao mesmo tempo em que eu lutava para fazer o letramento digital das turmas, meu medo era de me manter no mesmo ritmo em que sou nas aulas ministradas presencialmente: animado, divertido e sério ao mesmo tempo. Eu mudei o cenário do espaço da sala de casa, pedia desculpas pelo som do carro da pamonha do lado de fora e das gritarias vindas da rua. Lancei mão de alguns subterfúgios: criei uma playlist que eu botava para tocar em todo início de aula. Eu só não sabia se aquilo era para me distrair ou animar os estudantes. Algum gatilho aquelas músicas acionaram porque nos momentos em que a música não tocava, eu lia no chat: “Hoje não vai ter música, professor?”.

O retorno às aulas para o 2º semestre foi diferente quando comparado com aquela euforia em que eu estava em março. As novas turmas ainda não tinham tido aulas presenciais comigo. Para conhecê-los, eu criei chamadas virtuais para poder ter acesso a fotos da turma. Foram 3 meses em que praticamente eu fui o único que ligou a câmera. Minha conexão foi apenas por voz. Eu nunca dei tanto valor em ouvir o som vindo de uma pessoa. Eu memorizava e associava a voz ao estudante. Ao mesmo tempo em que me confundia, muitas vezes acertava.

Nessa jornada, chegamos ao final de mais um semestre acadêmico. Eu pude desenvolver ainda mais a empatia. De todos os recursos digitais que usei, reconheci que nem precisava de tanto para as aulas acontecerem. Os estudantes, em geral, estavam bem dispostos. Eu sempre os lembrava da importância dos laços sociais que devíamos manter. Graças às redes sociais nós vamos preservar a amizade mesmo que seja virtualmente. Agora chegamos ao fim de 2020 com novas esperanças. Diante de tudo isso, eu aprendi muito mais que ensinei.

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